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Mesmo sem estar radicado em Los Angeles, Diogo Morgado surge num filme de estúdio de Hollywood, Santuário das Sombras (já nas salas), filme de terror com o dedo de Sam Raimi. O ator português que salta de Hollywood para as novelas da TVI explica quem é este seu agente do Vaticano.

"Hot Jesus prejudicial? Nada, estou a trabalhar como nunca"

Por Rui Pedro Tendinha

Juntamente com Alba Baptista, Pepe Rapazote, Joaquim de Almeida ou agora Daniela Melchior, é um dos atores portugueses com presença constante na ficção de Hollywood. Esta semana os cinemas recebem Santuário das Sombras, de Evan Spiliotopoulos, produção de Sam Raimi para a Sony. Jeffrey Dean Morgan é a estrela mas nos secundários temos Diogo Morgado na pele de um padre investigador do Vaticano.

Nesta entrevista, o ator da Margem Sul confessa que não tem vontade de ser uma estrela de Hollywood. Em finais de setembro, Irregular, a sua nova longa como realizador tem ordem de estreia em Portugal.

Há um curiosa coincidência neste filme de um grande estúdio de Hollywood: uma história sobre uma suposta aparição religiosa com referência ao milagre de Fátima e um ator português no elenco…
Isso de Fátima é algo que está bem encaixado no guião. O filme trata de um súbito evento numa localidade que está supostamente atribuído a uma santa e, de repente, estamos na presença de um fenómeno paranormal. Claro que isto aos olhos da Igreja e do Vaticano é visto como um potencial santuário, tal como Fátima e outros famosos santuários. Ou seja, fizeram bem o trabalho de casa…Sabe, ouve-se algum português nas minhas cenas e isso é interessante: não estava no argumento. Fui eu que forcei – pensei que se a minha personagem é do Vaticano, ele não poderia falar uma ou duas frases na nossa língua?… O realizador disse logo: “bora lá”, achou fantástico! Mas este emissário do Vaticano que interpreto é um europeu, não é português…No argumento até estava que era italiano e quando se falava do milagre de Fátima ele diria algo em latim. E foi aí que sugeri dizer antes duas frases em português. O que gosto nele é o facto de ser um homem especializado em provar que os supostos milagres são falsos. Ele aparece para desmontar a fraude ou embuste, embora seja aí que a história aconteça.

Um homem de fé que tem de ser cético.
Sim, isso é o lado mais fixe da personagem. Por acaso, tive acesso da produção a material sobre estes enviados especiais e percebi que são quase técnicos operacionais do Vaticano. Estes tipos existem mesmo e desmontam fraudes relacionadas com falsos milagres.

Como é que fica o ego de um ator depois de ser escolhido para ser um dos atores de um filme produzido por Sam Raimi, o homem de uma das sagas de Homem-Aranha ou de filmes como O Plano ou Rápida e Mortal?
O meu ego fica igual…Não sei como é com os outros, mas eu fico tranquilo. É sempre bom, claro. O teu trabalho está a ser validado e validado por pessoas de grande renome neste mundo do cinema. E o que é engraçado é que quando conheci o Sam Raimi, a sua única preocupação era em saber se tudo estava bom ao nível da luz, cenários e que os atores tivessem tudo para poderem fazer um bom trabalho. Vi um tipo incrivelmente profissional a fazer aquilo que ama. Quanto mais tenho experiências a ver pessoas que admiro a trabalhar desta maneira mais compreendo que tudo o resto é um “hype” criado numa perspetiva de terceiros. Trabalhei também com a Patricia Arquette, logo a seguir a receber o Óscar e que exemplo! Estava preparado para encontrar uma diva e encontrei a pessoa mais acessível, generosa e incrível que alguma vez conheci em cena.

Mas estar num filme da Sony não era o melhor que lhe poderia ter acontecido?
Não, isso não! Mas é uma coisa ótima, obviamente. É sempre bom estar num bom filme feito por uma “major”. Enfim, isto é o que é…

Ou seja, não se distrai…
Não há razão nenhuma para me distrair. Isto é apenas um trabalho, se calhar o último…Sei lá se amanhã morro! Quer dizer, tudo isto é tão efémero. Sinto-me muito grato por tudo o que faço, seja aqui, seja na China! Quando me deixar de sentir grato deixo de fazer…

“Nunca foi o meu objetivo ser um ator conhecido internacionalmente. Adoro ir a Espanha e beber um café numa esplanada sem ninguém me chatear. A sério, adoro isso.”

De facto, depois deste filme de Hollywood já fez bastante ficção televisiva em Portugal.
Porque quero. Se quisesse fazer coisas lá fora, estava lá fora. Nunca foi o meu objetivo ser um ator conhecido internacionalmente. Adoro ir a Espanha e beber um café numa esplanada sem ninguém me chatear. A sério, adoro isso!! Já tive a oportunidade de experimentar um bocadinho ter tido algo conhecido à escala global e foi um bocado assustador. Percebi claramente que não é coisa que me traga felicidade.

Mas a escala do papel de Cristo em O Filho de Deus deixou-o desconfortável?
Nada. Percebi apenas que aquilo não me traz a felicidade que outras coisas me trazem.

Não sente que o “hot Jesus” da Oprah poderá ter sido um pouco prejudicial para a sua imagem de ator?
Nada prejudicial! Só acho é que foi redutor em relação àquilo que o trabalho foi. O que fiz não foi uma alcunha, foi sim um trabalho para a Fox visto em todo o mundo…Um trabalho de extrema dificuldade que recebeu elogios em vários países de variadas fações da religião e isso é tão difícil de atingir. Redutor sim, mas prejudicial não – estou a trabalhar como nunca.

E o que se aprende a contracenar com um ator como Jeffrey Dean Morgan, o protagonista deste filme?
Aprende-se a ser “cool“. Tudo o que ele quer é acabar o trabalho e voltar para a sua quinta e para os seus animais. O Jeffrey é um homem da vida e tudo menos deslumbrado com o “star system“. Revi-me muito nele…

Jeffrey Dean Morgan é a estrela mas nos secundários temos Diogo Morgado na pele de um padre investigador
Jeffrey Dean Morgan é a estrela mas nos secundários temos Diogo Morgado na pele de um padre investigador do Vaticano.

A pandemia interrompeu as filmagens de Santuário das Sombras. Convém talvez explicar que certas cenas depois foram filmadas à distância, ou seja, certos momentos com o Diogo são feitos em estúdio cá em Portugal…
Pois, ainda faltavam duas semanas de rodagem. O que posso dizer é que é absolutamente assustador o que se consegue fazer do ponto de vista técnico. Quando vi certas cenas fiquei baralhado: será que estava lá ou a cena foi feita cá?!

Fonte: DN


 

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